Cuidado com as fronteiras
por FernandoUma das resoluções de ano novo foi resolver meu problema móvel. Há muitos anos sou cliente da TIM e como nunca tive problema com ela, nunca pisei na Vivo, Claro ou Oi com a intenção de aproveitar meu direito de portabilidade.

O meu plano nem existe mais, um tal de Meia Tarifa 10 onde, na época era muito vantajoso. Não tinha o que discutir; quem tinha era mais feliz que sapo no banhado. A conta não fugia dos 30, 40 reais. Passaram-se meses de alegria, talvez um ano ou dois, e a conta agora não abaixa dos 90. Claro que devo falar um pouco mais que antes, mas nada que justifique o aumento de mais de 100% no valor da conta.
Como eu ainda não achei a árvore de dinheiro e as operadoras estão quase vendendo o corpinho para aumentar a base de clientes decidi que ia sair da TIM. A Oi parece ser bem mais geração Y que a TIM, mas já que estava decidido a mudar, iria a cada uma das operadoras ver o que cada uma delas tinha para oferecer.
Entrei no Shopping Mueller e apesar de ser a primeira loja, a Vivo não me atraiu e eu entrei na Claro. Fui atendido 20 minutos e só ganhei uma oferta interessante depois de dizer pro cara que me atendeu que eu era amigo do amigo dele. Mesmo assim, o plano era sem graça: cada minuto que eu falo no celular ganho outros 17 minutos para falar com outro número da Claro. Convenhamos: quem tem Claro em Joinville? Claro que alguém tem, mas nada que faça desse benefício uma real vantagem. Não para mim.
Dou uma chance a Vivo, mas 30 segundos depois me arrependo. Loja lotada, atendentes com cara de “é 12 de janeiro e eu estou trabalhando” (ok, eu também estou). Enfim, lá eu me senti um personagem de Ghost Whisperer. Nas paredes nenhum cartaz que iluminasse o meu problema. Aliás, na Claro também não. Caí fora…
Subo as escadas e oi. Lá fui atendido na hora por um vendedor legal que me mostrou um plano fantástico. Sem dúvida o melhor de todos e bastante compreensível. Parecia aquele comercial do Banco Real que passava há um tempo. Não dava para acreditar que era “simples assim”. Só não assinei nada naquela hora porque precisava me certificar que eu não tinha algemas atadas à TIM. Então desci lá e descobri que… sim, eu estava preso à TIM até agosto deste ano, porque no mesmo mês do ano passado eles me deram um celular “de grátis”. Tudo bem, mas aí se fez interessante o posicionamento da Oi. Eles não dão nada pra você. Você paga um preço bem camarada pelo plano e se quiser um celular bacanudo ou um modem eles até amortizam o pagamento nas faturas. É um lance muito legal, tipo “olha, eu sou uma empresa e preciso faturar milhões. Mas eu sei que você só quer um celular para usar sem se incomodar e como também sei que esses pedaços de plástico e silício aqui não valem muita coisa na verdade, te ofereço quase de graça, mas em em vez de te dar e dizer que sou camarada, desconto da fatura e no final do mês tu vai ter bem menos despesas”. Parece complicado, mas não é. Você não fica preso à Oi, mas ela também não te dá nada além.
Na TIM eu fui atendido rapidamente por uma moça que me encaminhou para outro cara que rapidamente deu o veredicto: “realmente o seu plano Meia Tarifa 10 agora é um lixo. Indo para um Infinity você vai gastar muito menos”. Como eu não podia sair da TIM e o meu problema havia sido realmente resolvido, fiquei ali. Afinal, o que eu podia fazer? Apesar da Oi ter uma cara legal, eu tinha algemas de compromisso com a TIM.
Okay, contei toda essa história para contextualizar minha reflexão, porque agora vem a razão desse post…
Hoje, com a portabilidade numérica, podemos dançar de uma operadora para a outra, tipo “quem dá mais?”. Na porta da TIM tem um cartaz dizendo que se eu levar meu celular de outra operadora eles me dão celular, desconto e fazem tudo que eu quiser. Na Claro, a moça que me atendeu disse que se eu estava ali levando um número de outra operadora o “atendimento era diferente, era especial”. Mas e eu que sou cliente dessa %$@&!* sei lá desde quando? Como fico? O pai da minha namorada tem conta na TIM há uns 15 anos (atualmente plano Família e Empresa) e sabe que benefício ele tem? Nenhum. Desconto? Nenhum. Vantagem em relação a qualquer pessoa que está vindo de outra operadora? Nenhuma. Aliás, essa pessoa tem muito mais vantagens que ele, mesmo que ela contrate o plano pós-pago mais bobo que tiver na operadora.

Será que isso está certo? Será que o importante é somente aumentar a base de clientes e alimentar essa ciranda das operadoras? O pai da minha namorada, maltratado que é, continua na TIM. Imagine você se ele fosse realmente reconhecido e tratado como um cliente especial. Ele faria uso da sua portabilidade? Iria para Oi, Claro ou Vivo? Ou Nextel? Pra quê? “I love TIM. It’s fucking good”. Mas não, ainda esse mês ele vai picar a mula de lá.
E para mim? Tudo bem, minha participação no faturamento da TIM é ridícula, mas é absurda demais a ideia de eles olharem para um cliente como eu e pensarem: “esse cara aqui está com um plano péssimo, ultrapassado. Ganhamos uma boa grana com ele, mas se oferecermos um plano Infinity ele vai pagar bem menos na fatura. Quem sabe até conseguimos vender um plano com internet pra ele. O cara vai tatuar TIM na bunda”. Ticket médio? Alou? A premissa não diz que é mais fácil manter um cliente que conquistar outro? Isso já caiu? Se sim, me digam por favor.
O cliente da base é tratado como um número, assim como somos tratados pelo governo, e é aparentemente bem melhor buscar alguém no playground do vizinho do que ajudar o seu cliente (que já está ali, já é seu) fazendo algo realmente bom por ele, algo que – de não tão surreal – ele vai contar para todo mundo que ver na frente. “Cara, tu não usa TIM? Como assim? Prestenção…”. Será que todas essas operadoras não percebem a bestialidade simples da matemática: 1 -1 = 0 ? Ou será que a matemática que importa é aquela que só soma?
Mas se você me disser que é claro que eles jamais fariam isso, afinal estão ganhando rios de dinheiro com a minha burrice e de outras milhares de pessoas que aina não atualizaram seus planos, eu nem tenho nada além desse post para responder. Tudo que lemos por aí sobre a nova realidade de relacionamento entre marcas e pessoas pode ir pro lixo.
Toda propaganda será inútil se a mente for estreita.
